Jotas

Positivas para alguns, indiferentes para outros. A existência de Juventudes Partidárias é actualmente uma questão que não gera consenso no seio da sociedade. Para perceber as razões que levam os cidadãos defender ou repreender estas estruturas políticas, a equipa do projecto Juventudes Partidárias foi para o centro da cidade de Braga abordar aleatoriamente alguns cidadãos sobre esta questão. As respostas podem ser vistas no vídeo que se segue.

O papel da Jotas na opinião de José Palmeira, professor de Ciência Política

“Em alturas de crise, o papel das Jotas está muito condicionado”

José Palmeira, professor de Ciência Política na Universidade do MinhoNos dias que correm os jovens estão mais desligados da política. A prova é que tanto no Parlamento como nas urnas o interesse e a participação da chamada geração à rasca são cada vez menores. José Palmeira, professor de Ciência Política da Universidade do Minho, explica a razão do desprezo que os mais novos têm pelo mundo da política e o que podem as Jotas fazer para mudar a situação. Em altura de eleições, o professor considera que o papel das Jotas está condicionado por uma certa ”precipitação dos acontecimentos”, que não os devem impedir de transmitir a irreverência própria dos mais novos.

Que factores são mais frequentes influenciarem os jovens a aderirem a juventudes partidárias?

Julgo que a resposta a essa questão devia ser dada pelos próprios jovens. Quanto à minha intuição, infelizmente, em Portugal, não há uma grande participação política, nem em organizações partidárias nem em organizações para-partidárias, tipo associações. Há um certo descrédito dos actores políticos. Os jovens, muitas vezes, não se sentem representados por aqueles que são os protagonistas da cena política. Os partidos são entidades muito fechadas e de difícil acesso. Diz-se, muitas vezes, que os partidos são agências de emprego e isso faz com que quem vá procurar os partidos seja quem quer um emprego. Isso é muito limitativo, porque um jovem que seja ambicioso acaba por não ter lugar para expressar as suas ideologias.

As Juventudes Partidárias poderão ter algum contributo para dar voz a esses jovens?

Podem, mas temos que pensar o que é que significam as Juventudes Partidárias, se são reflexo dos partidos e se os jovens levam um valor acrescentado aos partidos.

Considera que as jotas servem para dizer coisas que aos partidos não ficaria bem dizer?

Cada caso é um caso, nunca se pode generalizar. Se analisarmos o papel das Juventudes Partidárias em Portugal verificamos que estas servem para enquadrar e coordenar a participação dos jovens em instituições quer públicas quer privadas, como é o caso das Associações Académicas. Muitas vezes atribui-se aos dirigentes das Juventudes Partidárias a inclusão na agenda dos chamados assuntos fracturantes, questões a que os mais velhos não dão tanta relevância como os jovens, como por exemplo os assuntos ligados a uma inovação sexual (casamento entre pessoas do mesmos sexo) ou a preocupação em diminuir a idade permitida para votar. O problema é que estes assuntos são colocados em cima da mesa, mas não há propriamente um debate público.

As Juventudes Partidárias não têm em Portugal o papel que gostariam de ter?

Eu acho que as Juventudes Partidárias não têm independência face aos partidos. Têm amarras e, muitas vezes, essas amarras são fruto de uma dependência orgânica, uma ambição legítima desses jovens terem um papel no partido.

Considera que as Jotas são um berço da política?

Admito que sejam, porque se nós olharmos para os actuais dirigentes partidários, quase todos eles vêm das Jotas. Nós estamos numa fase em que as figuras principais dos partidos já tiveram, de certa forma, participação política ao nível da Juventude. Isto a priori até é positivo, porque significa que o trajecto político destas pessoas foi já feito na base de um percurso, houve uma evolução.

A expectativa de chegarem a cargos mais altos é, portanto, uma das principais razões que os levam a ingressar nas Jotas…

Se isso for considerado ambição, é legítimo. Isto é, se alguém se considera preparado para prestar um serviço ao seu povo, deve usar todos os instrumentos que conseguir, desde que não espezinhe os outros, não utilize meios menos lícitos. A ambição faz parte da vida das pessoas.

A família pode ter um papel importante na vontade de os jovens estarem ligados à política?

Claramente! Nós somos socializados pela família, escola, religião, associativismo…Ora, o instrumento mais forte de socialização é a família e, logo aqui, os mais novos recebem incentivos para participar mais ou participar menos. Toda a nossa vida é feita de experiências e os nossos pais também nos transmitem as suas e, portanto, passar vontades políticas também pode acontecer.

Fala-se, hoje em dia, da chamada geração à rasca que é a geração com acesso a mais informação, desde sempre. Porque é que os jovens mais informados de sempre participam tão pouco na vida política?

O facto de serem os mais informados de sempre não significa que sejam os mais bem informados de sempre. Temos a geração com mais formação. Eu posso ser um indivíduo extremamente bem informado na minha área e, no entanto, não ler jornais ou ouvir notícias. Eu posso ser, ao nível político, um analfabeto. Há possibilidade de acesso, mas o facto de eu ter internet não quer dizer necessariamente que eu esteja a navegar na internet em sítios de informação. Diz-se, muitas vezes, que os jovens estão alheados da política.

Estão alheados, porque não se interessam pela política?

Normalmente, quando há actividades de índole política em Portugal, não há grande participação dos jovens. Costuma haver a queixa de que os jovens não se sentem representados pelos partidos que temos, porque consideram que a actividade partidária não é aliciante. Das duas, uma: ou entram para os partidos para mudar esta actividade e torná-la mais aliciante ou, então, podem também eles próprios [os jovens] criar partidos que defendam os seus interesses. Se os jovens querem resolver os problemas não o podem fazer pela via do alheamento, isto não resolve problema nenhum. Devem fazê-lo pela via da participação naquilo que existe ou criando algo diferente. A manifestação Geração à Rasca pode ser vista como um cartão amarelo a quem está na vida política, mas exige-se mais dos jovens ao nível da sua participação.

A abstenção nas urnas por parte dos jovens também pode significar um cartão amarelo aos políticos?

Pode ou não. Temos de pensar no que leva uma pessoa a participar ou não participar. Por exemplo, em países onde se vive muito bem também há elevada abstenção, porque não precisam de nada e estão bem com a vida e, portanto, abstêm-se, mas não por descontentamento. Agora, é verdade que se diz que muitas vezes a abstenção em Portugal está ligada ao desinteresse, porque não vale a pena…Compete cada vez mais aos cidadãos e às redes sociais começarem a motivar as pessoas de uma forma construtiva. Hoje temos uma capacidade de intervir que vai para além do acto individualizado [o voto]. Os meios de comunicação, por exemplo, tendem a criar fóruns onde as pessoas se manifestam e daí podem surgir movimentos sociais que podem ter acção política directa.

Qual é o papel das Jotas em altura de eleições?

Em alturas de crise, o papel das Jotas está muito condicionado, porque é uma altura de uma certa precipitação dos acontecimentos. Quase não há tempo para grandes discussões e planeamentos. O papel das Jotas é importante ao longo dos tempos e não apenas nos períodos difíceis.

E nas eleições que se aproximam, qual poderá ser o papel das Juventudes Partidárias?

Os actuais dirigentes partidários já passaram por estas organizações e podem tender a considerar-se legítimos representantes do pensamento dos jovens. Mas será que há um pensamento jovem? A questão etária não significa ter que pensar diferente ou pensar melhor. Se quiserem reflectir um certa irreverência, que é própria das juventudes ou trazer para a agenda política aspectos que são próprios das juventudes, são um valor acrescentado. Se por outro lado, as Juventudes Partidárias são simplesmente um gueto reservado a jovens ou agentes de emprego, o seu papel não será positivo.

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